Texto: Redação Guardião · Setembro 2026
História: Onde tudo começou

Da capela da Fazenda Velha ao Marco da Aparição: a história de um povo que, diante da guerra, escolheu rezar — e de um Arcanjo que virou o padroeiro de uma cidade.

Toda devoção tem um começo humilde. Antes da Basílica, antes da Gruta do Arcanjo, antes de qualquer estátua projetada para tocar o céu, houve uma menina do sertão que só queria um lugar para rezar.
A capelinha da Fazenda Velha
Estamos no século XIX. No bairro da Fazenda Velha, os fiéis católicos enfrentavam cerca de quarenta quilômetros de estrada de terra até Itapetininga para participar da Santa Missa. A fé, ali, custava um dia inteiro de caminho.
Conta a tradição que a filha do sertanista Tenente Urias, devota de São Miguel Arcanjo, pediu ao pai que erguesse uma capelinha na própria fazenda, para que pudesse prestar sua devoção sem sair de casa. Foi esse gesto simples — uma filha, um pai, um pedido de fé — o embrião da cidade que hoje carrega o nome do Arcanjo.
O passo seguinte ficou registrado em escritura. Em 2 de abril de 1884, Dona Thereza Augusta Nogueira Teixeira, uma das filhas do Tenente Urias, doou a terra onde se ergueria a Capela de São Miguel Arcanjo da Fazenda Velha. A doação vinha com uma cláusula que dizia tudo sobre a intenção daquela família:
"Em tempo declaro que faço esta doação com a condição de nunca ser vendida e quando seja, o produto empregue-se na mesma Capela." (Livro do Tombo da Paróquia)
O que era de Deus deveria permanecer de Deus. E permaneceu.
A capelinha se encheu. Aos domingos, o povo ocupava cada espaço para louvar e agradecer, e logo o que era capela pediu para ser mais. A comunidade se organizou, recorreu às autoridades eclesiásticas, e a devoção foi ganhando forma institucional: a Paróquia de São Miguel Arcanjo foi erigida canonicamente em 1886; em 1887, o nome do padroeiro se tornou oficial e o antigo bairro foi elevado à condição de Freguesia; em 1889, sob a proteção do Arcanjo, a localidade se emancipou e nasceu o Município de São Miguel Arcanjo.
Não à toa, o povo são-miguelense repete até hoje, com orgulho e com fé, que foi São Miguel Arcanjo quem fundou a cidade que leva o seu nome.

Igreja Matriz, 1962

Imagem feita à mão por um artesão e doada pela família Mattiucelli — devotos que quiseram deixar sua fé registrada nesta casa —, a imagem de São Miguel Arcanjo é única e exclusiva da Basílica Santuário São Miguel Arcanjo. Hoje ela se encontra no oratório da Basílica, guardando de perto quem vem rezar. Um gesto de devoção que se tornou patrimônio de todos os Guardiões.
Santuário Diocesano
Dezenas de outros Párocos foram nomeados para dirigirem nossa Paróquia. Todos são merecedores de nossa gratidão por deixarem suas marcas, suas contribuições para nossa igreja, para nosso município. No dia 03 de novembro de 2012, tomou posse como Pároco o Padre Márcio Giordany Costa de Almeida, que, com seu jeito simples, organizado e motivador, tem realizado um excelente trabalho de evangelização nesta cidade.
Durante muitos anos, a comunidade católica São-miguelense sonhava com a elevação da nossa Matriz à condição de SANTUÁRIO! Outros padres deram alguns passos importantes nesse processo.
A partir do dia 29 de abril de 2013, foi instituído o Dia Votivo a São Miguel Arcanjo, em todo dia 29 de cada mês, onde celebramos a Santa Missa em três horários: às 9h, onde rezamos em especial pela saúde dos Enfermos; às 12:30h, onde rezamos em especial pelos Falecidos; e às 19:30h, onde rezamos em especial pelas Famílias. Nesses dias, em especial, a igreja fica repleta de devotos de nossa cidade, de cidades vizinhas e até mesmo de outros Estados. Vêm para agradecer, rezar, suplicar, ou fazer o turismo religioso, que se torna muito forte!
Ficamos admirados com a devoção de tantos que vêm em peregrinação, dos bairros e de outras cidades, vindos de ônibus, em excursões, de moto e de bicicleta, ou a cavalo e, mais ainda, à pé, andando centenas de quilômetros! É grande a devoção, e se torna cada vez maior, ao nosso GUARDIÃO DO PARAÍSO!
Uma tradição propagada há muitos anos aqui em nossa Paróquia, mas desde 2013 passada a ser realizada na Igreja com a presença de fiéis, é a Quaresma de São Miguel Arcanjo, que inicia sempre no dia 15 de agosto, seguindo tradição Franciscana, e finaliza no dia 28 de setembro. Nesse período de aproximadamente 40 dias nos colocamos diante de nosso glorioso Padroeiro e nos preparamos para celebrar o grande dia, 29 de setembro, dos Arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel.
Toda essa caminhada culminou na elevação de nossa Igreja Matriz à condição de Santuário Diocesano.
Em maio de 2013 o Pe. Márcio Almeida apresentou ao Bispo Diocesano, Dom Gorgônio Alves da Encarnação Neto, CR, esse pedido, justificando que esse sentimento existia no coração do povo são-miguelense há muitos anos. Disse também que já havia uma vida própria de Santuário, com peregrinações e missas votivas. Por fim, disse que o município tinha uma característica turística relevante devido aos parques de Mata Atlântica e a Rota da Uva, e que o turismo religioso estava crescendo e que o título de Santuário poderia fortalecer o município. Assim, Dom Gorgônio acolheu este pedido e no dia 21 de setembro de 2013 realizou-se o RITO DE DEDICAÇÃO DO TEMPLO A DEUS e a ELEVAÇÃO DA IGREJA MATRIZ A SANTUÁRIO!
A Divina Providência escolheu o Paroquiato do Padre Márcio Almeida para nos agraciar com a realização de um SONHO há anos SONHADO: sermos SANTUÁRIO DE SÃO MIGUEL ARCANJO, única cidade no Brasil a ter seu nome como o do ARCANJO MIGUEL. Bendizemos a Deus pela graça! Somos eternamente gratos ao Padre Márcio por não desanimar, buscar com fé e esperança e a certeza de que seríamos SANTUÁRIO! Nossa Paróquia, nossa Igreja Matriz, Igreja Viva, Templo Santo do Senhor, tomada de emoção pelos atos de Dedicação e Elevação a Santuário, com fé renovada, aplaudiu calorosamente a graça por nós recebida de Deus Pai, de sermos, agora, SANTUÁRIO DE SÃO MIGUEL ARCANJO…
Para acolher bem os visitantes e devotos de São Miguel Arcanjo, o Santuário precisou passar por uma adequação de sua estrutura física. Foram construídos: uma gruta dedicada a São Miguel Arcanjo, na praça ao lado da Igreja; um amplo velário, no lado externo do Santuário, onde os devotos podem acender suas velas todos os dias; um banheiro grande e adaptado à realidade; e, por fim, o Espaço Devotos de São Miguel Arcanjo, contendo Museu de Arte-Sacra resgatando a história da Paróquia, uma sala de Exvotos, loja com artigos religiosos e cafeteria.
No museu, respira-se história com exposição de material e objetos usados nas Celebrações: imagens, opas dos Irmãos do Santíssimo, paramentos do Cônego Francisco, Missal Romano, Cruz do altar, pálio usado na procissão do Corpo de Cristo; castiçais, turíbulo, âmbula, Círio Pascal, cálices, fita da Cruzada, estandarte de Nossa Senhora e da Paróquia de São Miguel Arcanjo, quadro da Via Sacra (tudo da Capela Velha); na Sala dos Exvotos, muitos depoimentos de graças alcançadas, de milagres concedidos por Deus através da intercessão de São Miguel Arcanjo, fotos de pessoas que receberam os milagres; peças que representam a devoção e confiança de nosso povo, como asas de anjinhos apresentadas por pais e mães em gratidão por seus filhos, etc.
Em 2016 nosso Santuário foi presenteado com duas belíssimas RELÍQUIAS: a do Papa SÃO JOÃO PAULO II e a de SÃO CAMILO DE LÉLIS, gentilmente ofertadas pelo Padre Luís Armando, natural de São Miguel Arcanjo, pertencente à Congregação de São Camilo de Lélis e residente em Valência, na Espanha. Na entronização das relíquias, em Missa Solene, disse o Pe. Luis Armando: “Estou muito feliz em ver as maravilhas que estão acontecendo em nossa Igreja que agora é Santuário. Ela merece esse presente!”.
Mas a nossa história não para por aí… O Senhor quis mais para nossa Igreja!

Cardeal Robert Sarah (direita na imagem)
Elevação a Basílica Menor
Os sinos badalaram no início da tarde do dia 21 de junho de 2018 no Santuário São Miguel Arcanjo. Foi a chegada de uma boa nova para os fiéis são miguelenses e de toda a diocese de Itapetininga, que celebrava, então, seus 20 anos. O Vaticano concedeu o título de Basílica Menor ao Santuário de São Miguel Arcanjo! O pároco e reitor, Pe. Márcio Almeida, em uma transmissão ao vivo em seu perfil pessoal no facebook, anunciou a notícia aos fieis. “Hoje para nós é um dia de imensa alegria”, exclama.
No dia 25 de maio, o Cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina Sacramental, assinou o decreto de concessão do título de Basílica Menor à Igreja Santuário de São Miguel Arcanjo. O decreto, assinado pelo Cardeal, diz:
“A concessão deste título a esta importante Igreja, intensificando o vínculo com esta Igreja Particular e a Igreja de Roma, é um incentivo a promover a sua exemplaridade como verdadeiro centro de ação litúrgica e pastoral da diocese”.
A Missa de Instalação de Basílica Menor aconteceu no dia 01 de setembro de 2018, foi presidida por Dom Gorgônio Alves da Encarnação Neto, CR, bispo da Diocese de Itapetininga-SP, e contou com a presença do Arcebispo de Sorocaba, Dom Júlio Endi Akamine, do Bispo de Itapeva, Dom Arnaldo Carvalheiro Neto, bem como diversos padres, diáconos, seminaristas das Dioceses da Província e um grandioso número de fiéis devotos de São Miguel Arcanjo.
De acordo com Pe. Márcio, o pedido de Concessão do Título foi enviado pelo bispo diocesano, D. Gorgônio, em 2 de janeiro de 2018 ao Vaticano. Na sequência, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina Sacramental solicitou que se respondesse a um minucioso questionário para avaliar se o Santuário atendia aos critérios necessários para ser elevada à Basílica Menor. O reitor conta que entre os documentos, estavam: medidas do prédio e de suas partes internas, história da Igreja, descrição da vida religiosa, fotos, vídeos, documentos de comprovação, entre outros dados. Tudo isto foi entregue na Congregação pelo Pe. Márcio no dia 11 de abril de 2018 em audiência particular com o Monsenhor Aurélio Garcia, assessor do Cardeal Robert Sarah, na Congregação responsável.
A Basílica Menor é uma Igreja Papal, uma extensão do Vaticano, e torna-se uma Igreja que oferece graças especiais, que somente estas podem oferecer. Conforme o decreto “Domus Ecclesiae”, os fiéis que visitam uma Basílica podem obter a Indulgência Plenária, observando as condições habituais (confissão sacramental, comunhão eucarística e oração pelas intenções do Santo Padre), em datas especiais. Na Basílica de São Miguel Arcanjo foram estabelecidas as seguintes datas:
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Uma vez ao ano no dia estabelecido pelo Ordinário local (01 de janeiro);
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No dia do aniversário da concessão do título de Basílica (25 de maio);
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Na solenidade dos Santos Pedro e Paulo apóstolos (29 de junho);
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No dia do aniversário da dedicação da Basílica (21 de setembro);
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No dia da celebração litúrgica do patrono (29 de setembro);
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Uma vez ao ano no dia livremente escolhido pelo fiel.
No templo, estão também dispostos quatro sinais visíveis que distinguem uma Basílica: o Brasão do Vaticano na cadeira do presidente; a Umbela Papal (o guarda-chuva com as cores do Vaticano e os brasões do Vaticano, do Papa, do Bispo diocesano, da Basílica, do reitor e da cidade); o Tintinábulo (espécie de sino dentro do brasão do vaticano) e a Virga Rubra (brasão do Vaticano com cabo vermelho rubro que estabele o ritmo das procissões de rua).
Somos imensamente gratos a Deus por tantas maravilhas realizadas em nossa Igreja nos últimos anos… sabemos que a titulação de Basílica Menor é fruto de uma caminhada que se iniciou com a construção da primeira capela e que sempre teve o envolvimento dos fiéis… Que Deus nos abençoe e São Miguel Arcanjo nos proteja para sermos sempre uma Igreja evangelizadora.
Neste Testemunho, o Reitor da Basílica, Padre Márcio Almeida, reconta como São Miguel Arcanjo escolheu um lugar no interior paulista — e lhe deu o próprio nome. Um relato colhido de seu livro Os Milagres e Sinais de São Miguel Arcanjo.

Essa foi a imagem comtemplada pelo capitão. Ao contemplar a imagem de São Miguel Arcanjo, teria reconhecido nela a figura que vira na noite anterior. Tomado pela emoção, exclamou:
"Foi ele! Foi esse homem que eu vi! Foi ele que disse que a guerra havia acabado!"
Essa imagem foi restaurada e hoje se encontra na Capela do Batismo, no átrio da Basílica.
Nem toda cidade nasce da vontade dos homens. Algumas parecem escolhidas.
No século XIX, o que hoje chamamos de São Miguel Arcanjo era só um vilarejo, perdido entre as terras de Itapetininga, no interior de São Paulo. Foi para lá que o Tenente Urias levou a família. Em 1844, o Governo o encarregou de abrir uma estrada ligando Itapetininga ao porto de Iguape, e o pequeno povoado, que ele já habitava, começou a ganhar vida nova.
A fé chegou pelas mãos de uma filha. Maximina Ubaldina, devota do Arcanjo, pediu ao pai que erguesse uma capela em honra do Príncipe das Milícias Celestes, para que os moradores da redondeza pudessem viver sua fé sem caminhar os quarenta quilômetros que os separavam de Itapetininga. A capela foi levantada — e, a partir dela, a devoção ao defensor cresceu no coração daquela gente simples. Agora podiam rezar ali mesmo, na igrejinha de São Miguel Arcanjo.
O amor ao Arcanjo cresceu mais depressa que a igreja. Em pouco tempo, o templo já não comportava tantos fiéis. Em 1884, outra filha do Tenente Urias, dona Thereza Augusta Nogueira Teixeira, doou vinte e cinco alqueires de terra para uma nova capela — e o fez "para o santo", com uma condição registrada no Livro do Tombo: aquela terra jamais poderia ser vendida; e, se um dia a venda fosse inevitável, o dinheiro haveria de servir à mesma capela. Naquele mesmo ano, ainda sem ser paróquia, a igreja recebeu da Arquidiocese de São Paulo autorização para abrir seu próprio Livro do Tombo.

Os passos seguintes vieram rápido. Em 11 de janeiro de 1886, a capela foi elevada a Paróquia de São Miguel Arcanjo. E em 1889, três anos depois, o vilarejo tornou-se enfim município — recebendo o nome daquele que ali escolhera acampar e derramar suas graças.
É por isso que tenho para mim que o verdadeiro fundador desta cidade é o próprio São Miguel Arcanjo. O Tenente Urias e sua família tiveram papel importantíssimo, não há dúvida. Mas quando se acompanha a história dos fatos, fica ainda mais claro: houve uma escolha do próprio Arcanjo por este lugar.
A vida do município seguiu adiante. Povo simples, mas fiel e devoto. Ainda que poucos, aqueles moradores sonhavam com uma igreja maior. Nos anos 1940, formou-se uma comissão para construir a nova Matriz. A pedra fundamental foi lançada em 1º de dezembro de 1944, e a obra começou em 2 de janeiro de 1945.
O projeto de engenharia foi doado pelo engenheiro Renato Scoponi — belo, porém ousado demais para um município pobre e pequeno. O próprio bispo, com cuidado, advertiu que aquilo estava muito além das posses da comunidade, e que poderia levar anos a fio para se concluir.
Mas os fiéis não desanimaram. Arregaçaram as mangas, fizeram quermesses e tocaram uma obra que se estenderia por cerca de quinze anos. Tijolo sobre tijolo, quermesse após quermesse, ergueram com as próprias mãos o templo que se julgara impossível.
Na inauguração, na Festa de Cristo Rei, em 30 de outubro de 1960, Dom José Carlos de Aguirre, então bispo diocesano, resumiu o que todos sentiam: "A Matriz de São Miguel Arcanjo é um dos mais suntuosos templos de nossa Diocese."
Do vilarejo à paróquia, da paróquia à cidade, da Matriz erguida em quermesses à Basílica reconhecida por Roma — em cada etapa se reconhece a mesma mão. O Arcanjo escolheu este lugar. E continua escolhendo, a cada devoto que aqui chega e descobre que também foi chamado.

Referência: ALMEIDA, Márcio. Os Milagres e Sinais de São Miguel Arcanjo.
